O custo oculto da semaglutida: você está perdendo o tipo errado de peso? A revolução da perda de peso tem um porém…
A chegada de análogos do GLP-1, como a semaglutida, foi celebrada como um avanço revolucionário no controle do peso. Para milhões de pessoas com obesidade, esses medicamentos proporcionaram resultados transformadores, oferecendo uma ferramenta poderosa para perder peso de forma significativa onde outros métodos falharam. Os casos de sucesso são convincentes, generalizados e consolidaram esses medicamentos como verdadeiros milagres modernos.
Mas por trás desse fenômeno de perda de peso, esconde-se uma realidade biológica crucial. Os quilos que desaparecem na balança não são apenas gordura indesejada. Uma parcela significativa é massa muscular, metabolicamente preciosa, e essa perda acarreta consequências que podem afetar o metabolismo, a força e a saúde a longo prazo. A nova era do emagrecimento médico não se concentra apenas no que você perde, mas também no que você consegue manter.
A perda de peso não se resume apenas à perda de gordura — envolve também a perda de massa muscular.
Um dos principais desafios da perda de peso induzida por análogos do GLP-1 é a perda concomitante de massa muscular. Estudos mostram que, para cada 10kg de peso total perdido, os homens perdem em média de 2 a 2,5kg de massa muscular, enquanto as mulheres perdem entre 1 e 1,5kg.
Isso não é um detalhe insignificante. O músculo é um tecido metabolicamente ativo, crucial para a força, mobilidade e função física geral. Perder massa muscular pode diminuir a taxa metabólica basal — a velocidade com que o corpo queima calorias em repouso. Um metabolismo mais lento, por sua vez, pode dificultar a perda de peso ao longo do tempo, criando um platô frustrante. O objetivo para qualquer pessoa com obesidade deve ser perder peso principalmente da gordura armazenada, tornando a preservação da massa muscular um componente crítico para um resultado saudável.
A melhor defesa é uma combinação de dieta e exercícios.
Para combater a perda muscular induzida por medicamentos, especialistas estão reforçando dois pilares fundamentais da saúde. Enquanto os medicamentos GLP-1 enviam um sinal poderoso ao corpo para perder peso, o exercício e a proteína enviam o sinal crucial para preservar a massa muscular durante esse processo. Essas estratégias “tradicionais” não são apenas complementos úteis; elas são essenciais para dizer ao seu corpo que tipo de peso perder.
Exercício: A prática regular de exercícios é essencial para sinalizar que seus músculos são necessários. Embora qualquer atividade seja benéfica, estudos indicam que uma combinação de exercícios aeróbicos (como corrida ou ciclismo) e treinamento de força (como musculação) é a abordagem mais eficaz para preservar a massa muscular durante a perda de peso.
Nutrição: Consumir proteína suficiente fornece os componentes essenciais que o corpo precisa para reparar e manter o tecido muscular. Isso é crucial para todos, mas vegetarianos e veganos podem precisar ser ainda mais criteriosos com suas escolhas alimentares para garantir que estejam atendendo às suas necessidades diárias de proteína.
Essa sinergia é imprescindível para resultados positivos para a saúde:
O músculo precisa de estímulo e nutrição, o que é sempre fundamental!
O risco de perda muscular é ainda maior após os 60 anos.
Embora a preservação da massa muscular seja importante para todos os pacientes, os profissionais de saúde estão particularmente preocupados com aqueles acima de 60 anos. Essa faixa etária tende naturalmente a perder mais massa muscular como parte do processo de envelhecimento, uma condição conhecida como sarcopenia. A perda muscular induzida por medicamentos pode acelerar significativamente esse declínio natural, representando um risco maior para a força, mobilidade e independência a longo prazo.
O futuro pode envolver “coquetéis” de drogas para proteger os músculos.
A comunidade científica já está trabalhando em soluções para lidar com esse efeito colateral específico. Pesquisadores estão estudando “coquetéis” experimentais de medicamentos que combinam análogos de GLP-1 com fármacos destinados a preservar a massa muscular. Dois candidatos promissores são:
• Bimagrumab: Quando testado em conjunto com a semaglutida, este medicamento demonstrou reduzir a perda muscular e também ajudar a mobilizar as reservas de gordura.
• Enobosarm: Esta molécula pró-testosterona também está sendo estudada por seu potencial para diminuir a perda muscular quando usada em combinação com análogos de GLP-1.
É crucial ressaltar que ambos os medicamentos ainda estão em fase de estudo e não estão disponíveis para uso geral. No entanto, representam um futuro promissor, no qual os tratamentos para perda de peso poderão atingir a gordura de forma mais eficaz, protegendo ao mesmo tempo o tecido muscular essencial.
Não se trata apenas de peso — também se trata de risco cardiovascular.
A discussão em torno desses medicamentos está se expandindo para além de simples métricas de peso. Um estudo recente, conhecido como estudo STi, adicionou outra camada à discussão ao comparar a semaglutida com outro medicamento, a tirzepatida. Os resultados sugeriram que, para pacientes com obesidade que não têm diabetes, a semaglutida pode estar associada a um menor risco de eventos cardiovasculares. Isso significa que a escolha do tratamento adequado envolve mais do que apenas números na balança; requer uma avaliação personalizada do perfil de saúde completo do paciente, incluindo o histórico de diabetes e o risco cardiovascular.
Redefinindo a perda de peso saudável
Os análogos de GLP-1 são, inegavelmente, ferramentas poderosas no tratamento da obesidade. No entanto, é evidente que, para que esses medicamentos sejam verdadeiramente eficazes, uma abordagem holística não é opcional — é um tratamento concomitante obrigatório.
Alcançar uma perda de peso saudável e sustentável requer a proteção ativa da nossa massa muscular vital por meio de dieta e exercícios físicos direcionados.
A ciência está avançando rapidamente e tratamentos futuros poderão resolver o problema da perda muscular diretamente. Até lá, o sucesso deve ser medido não apenas pela quantidade de quilos perdidos, mas também pela qualidade dessa perda.
À medida que esses novos e poderosos tratamentos evoluem, como precisaremos mudar nossa própria definição de uma jornada de emagrecimento “bem-sucedida”?
Fontes: Bergmann NC, Davies MJ, Lingvay I, Knop FK. Semaglutide for the treatment of overweight and obesity: A review. Diabetes Obes Metab. 2023 Jan;25(1):18-35. doi: 10.1111/dom.14863. Epub 2022 Oct 18. PMID: 36254579; PMCID: PMC10092086.
Aimelet V, Holst JJ. Pharmacological intervention: Challenges and promising outcomes for fat loss and preservation of lean body mass in the treatment of overweight and type 2 diabetes. Diabetes Obes Metab. 2025 Nov 3. doi: 10.1111/dom.70229. Epub ahead of print. PMID: 41178728.