O Inimigo Oculto da Sua Saúde Cardiovascular
A preocupação com a pressão alta é uma constante na vida de muitos, e a primeira recomendação que ouvimos é quase universal: “corte o sal”. Essa é, sem dúvida, uma orientação importante, mas será que é a única peça do quebra-cabeça? Embora o controle do sódio seja fundamental, a mais recente Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, uma colaboração da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) e Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), revela fatores surpreendentes e até contra-intuitivos sobre nosso estilo de vida e alimentação que são cruciais para a saúde do coração. O objetivo deste artigo é traduzir esses achados complexos em dicas práticas para o seu dia a dia, focando nos cuidados que vão muito além do saleiro.
O Verdadeiro Vilão do Sódio Não Mora no Saleiro
É comum ouvirmos que a maior parte do sódio que consumimos vem de alimentos industrializados. A diretriz esclarece essa informação: em países de alta renda, de 70% a 80% do sódio realmente vem de produtos processados e ultraprocessados. No entanto, em países de renda baixa ou média como o Brasil, a principal fonte de sódio ainda é o sal adicionado durante o cozimento ou à mesa. Ainda assim, a crescente expansão da indústria alimentícia torna os industrializados uma fonte cada vez mais significativa e preocupante de sódio em nossa dieta.
Essa informação desmistifica também a ideia de que sais “gourmet” são alternativas mais saudáveis. A diretriz é clara ao afirmar que sais como o rosa do Himalaia e o sal marinho têm, na prática, o mesmo teor de sódio que o sal de cozinha comum. Portanto, a troca de um pelo outro não traz benefícios para o controle da pressão arterial. Essa revelação muda o foco da nossa atenção: o controle eficaz do sódio começa não apenas na cozinha, mas principalmente na leitura atenta dos rótulos dos produtos no supermercado.
Seu Prato Pode Estar Precisando de um Herói: O Potássio
A nova diretriz dá tanto destaque ao aumento do consumo de potássio quanto à redução do sódio. Aumentar a ingestão desse mineral é uma estratégia comprovada para ajudar a reduzir a pressão arterial, neutralizando alguns dos efeitos do excesso de sódio em nosso corpo.
A recomendação oficial é de uma ingestão de pelo menos 3,5 gramas de potássio por dia. Felizmente, ele é encontrado em alimentos deliciosos e saudáveis. As principais fontes citadas no documento incluem:
• Frutas
• Verduras e hortaliças
• Oleaginosas (castanhas, nozes, amêndoas)
• Leguminosas (feijões, lentilha, grão-de-bico)
• Laticínios com baixo teor de gordura
É importante notar que, para pessoas com certas condições, como doença renal crônica (DRC), o excesso de potássio pode ser perigoso. A recomendação de aumentar o potássio foca em fontes alimentares. Se você considera usar substitutos de sal à base de potássio ou suplementos, é fundamental consultar seu médico primeiro. Para a maioria das pessoas, pensar em “adicionar” alimentos ricos em potássio à dieta é uma estratégia muito mais positiva e igualmente eficaz do que focar apenas em “remover” o sal.
Aquela “Taça de Vinho por Dia” Pode Não Ser Tão Benéfica Assim
Por muito tempo, acreditou-se que um consumo moderado de álcool, como uma taça de vinho por dia, poderia ter um efeito protetor para o coração. No entanto, a diretriz alerta que evidências recentes questionam esse mito, indicando que essa associação pode ter sido resultado de fatores de confusão em estudos antigos.
As evidências mais recentes apontam para uma relação direta entre a ingestão de álcool e um maior risco de doenças cardiovasculares, mesmo em doses consideradas baixas. O documento especifica que o consumo de mais de 15 g/dia em mulheres e 30 g/dia em homens já representa um risco para o desenvolvimento de hipertensão. Para traduzir isso em termos práticos, uma dose padrão (10-12 g de álcool) equivale a aproximadamente 100 mL de vinho (12%), 200 mL de cerveja (5%) ou 25 mL de uma bebida destilada (40%). Essa nova perspectiva nos convida a reavaliar o consumo de álcool não como um hábito benéfico, mas como um ponto de atenção dentro de um estilo de vida verdadeiramente saudável.
Sua Pressão Arterial Pode Ser Influenciada por Onde Você Mora
De forma surpreendente, a diretriz expande o conceito de saúde cardiovascular para além das nossas escolhas individuais, abordando o impacto dos fatores ambientais. O local onde vivemos pode, de fato, influenciar nossa pressão arterial.
Fatores como a poluição sonora e a poluição do ar estão associados ao aumento da pressão, agindo por mecanismos ligados ao estresse psicossocial e a danos no revestimento dos vasos sanguíneos (disfunção endotelial) e estresse oxidativo. Da mesma forma, a ausência de espaços verdes nas cidades está relacionada à inatividade física, um conhecido determinante da hipertensão.
Até o clima tem seu papel. No Brasil, a diretriz aponta que regiões com temperaturas médias mais elevadas tendem a ter menor prevalência de hipertensão, enquanto regiões mais frias registram uma prevalência maior. Essa visão nos mostra que a saúde é um fenômeno complexo, influenciado por um ecossistema de fatores que vão muito além do nosso prato.
Uma Boa Notícia Para os Amantes de Café
Em meio a tantas restrições e pontos de atenção, a diretriz traz um alívio para muitos: o café. Segundo o documento, o consumo habitual e moderado de café — definido como até três a quatro xícaras por dia — não eleva a pressão arterial nem aumenta o risco de desenvolver hipertensão.
A recomendação, claro, é de moderação. É importante evitar o consumo excessivo de outras bebidas ricas em cafeína, como os energéticos. Mas, para quem não abre mão daquele cafezinho, a ciência confirma que esse pequeno prazer diário pode ser mantido sem culpa dentro de um estilo de vida equilibrado e saudável para o coração.
Um Olhar Integral Para a Saúde do Coração
A nova Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial nos convida a mudar o foco: do saleiro para o carrinho de compras; da simples restrição de sal para a adição estratégica de potássio; e do nosso prato para o ambiente em que vivemos. Cuidar da saúde do coração é uma tarefa muito mais ampla e interessante do que simplesmente esconder o saleiro, envolvendo uma consciência integral sobre nossas escolhas e o mundo ao nosso redor.
Depois de descobrir esses fatores, qual pequena mudança você se sente mais inspirado a fazer na sua rotina a partir de hoje?
Fonte: Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Armstrong AC, Mulinari RA, Feitosa ADM, Mota-Gomes MA, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq. Bras. Cardiol. 2025;122(9):e20250624.