Alimentos Ultraprocessados: Novo Guia da American Heart Association traz explicações relevantes para nortear nossas escolhas

A confusão em torno do termo “alimentos ultraprocessados” é enorme. Para muitos, a palavra evoca imagens de salgadinhos, refrigerantes e doces. Mas o que a ciência realmente diz?

Recentemente, a American Heart Association (AHA), uma das maiores autoridades em saúde cardiovascular do mundo, publicou um novo parecer científico que esclarece a questão de maneiras surpreendentes. Prepare-se para descobrir que a definição de ultraprocessado tem menos a ver com a quantidade de processamento e mais com a intenção dos ingredientes adicionados — uma distinção que muda tudo.

Este artigo vai direto ao ponto, revelando os pontos mais impactantes e contraintuitivos desse relatório de especialistas.

A Definição Não É o Que Você Pensa: Trata-se de Aditivos “Cosméticos”

A primeira grande surpresa é a definição oficial. Segundo a classificação Nova, o mais utilizado globalmente (e de autoria brasileira), um alimento não se torna ultraprocessado apenas pelo número de ingredientes ou pelo nível de processamento. É crucial entender que, embora todos os ultraprocessados passem por processamento industrial, nem todo alimento processado industrialmente é um ultraprocessado. O fator decisivo é a presença de “aditivos cosméticos” ou “substâncias alimentares de uso não culinário”.

Esses são ingredientes que você normalmente não usaria na cozinha de casa, projetados especificamente para realçar a palatabilidade, a aparência, o sabor ou a textura do produto final. Aqui estão alguns exemplos claros, extraídos diretamente do parecer da American Heart Association:

Aditivos Cosméticos: Aromatizantes, corantes, emulsificantes, espessantes.

Substâncias de Uso Não Culinário: Xarope de milho rico em frutose, óleos hidrogenados, amidos modificados, proteínas isoladas.

A distinção é fundamental: enquanto um pão caseiro pode passar por múltiplos estágios de processamento (moer, misturar, assar), ele não se torna “ultraprocessado” até que se adicione um emulsificante para prolongar a maciez ou um aromatizante artificial, ingredientes que servem a propósitos industriais, não culinários.

Um exemplo do relatório ilustra isso perfeitamente: um simples grão-de-bico torrado, que seria um lanche saudável, torna-se um ultraprocessado no momento em que a indústria adiciona um único “aromatizante” para intensificar seu sabor.

Nem Todo Ultraprocessado É “Junk Food”

Tendo em vista as explicações anteriores, podemos concluir que o pão integral pode ser um ultraprocessado, porém isso não significa necessariamente que ele seja ruim para você. A classificação de um alimento como ultraprocessado não leva em conta sua qualidade nutricional. Isso significa que alguns alimentos ricos em nutrientes podem, sim, ser ultraprocessados, mas seu impacto na saúde pode ser neutro ou até benéfico.

O parecer menciona especificamente exemplos como certos pães integrais, iogurtes com baixo teor de açúcar e algumas pastas à base de vegetais ou nozes. Embora contenham aditivos que os classificam como ultraprocessados, eles podem fazer parte de uma dieta saudável. A American Heart Association enfatiza este ponto no resumo do seu parecer:

“No entanto, nem todos os alimentos ultraprocessados são prejudiciais. Certos pães integrais, iogurtes com baixo teor de açúcar, molhos de tomate e pastas à base de nozes ou feijão são de melhor qualidade dietética, foram associados a melhores resultados de saúde e são acessíveis, permitindo a possível inclusão em dietas.”

No entanto, os especialistas da AHA recomendam que mesmo esses produtos sejam monitorados, pois os efeitos de longo prazo de seus aditivos ainda não são totalmente compreendidos.

O Impacto Vai Além do Açúcar e da Gordura

É verdade que a maioria dos ultraprocessados são ricos em gorduras saturadas, açúcares adicionados e sódio. No entanto, o parecer da AHA deixa claro que os riscos vão muito além da má nutrição. Existem outros mecanismos pelos quais esses alimentos podem prejudicar a saúde:

Alterações de Textura: A textura macia e o baixo teor de fibras de muitos ultraprocessados incentivam um ritmo de alimentação mais rápido, o que pode levar ao consumo excessivo de calorias antes que o cérebro registre a saciedade.

Ruptura da Matriz Alimentar: O processamento intenso pode destruir a estrutura natural do alimento. Isso acelera a absorção de açúcares e pode prejudicar os sinais hormonais que regulam o apetite.

Desregulação da Microbiota Intestinal: Certos aditivos, como emulsificantes e adoçantes, podem afetar negativamente o equilíbrio das bactérias benéficas em nosso intestino.

Exposição a Contaminantes: As embalagens plásticas podem liberar substâncias químicas, como bisfenóis e ftalatos, nos alimentos, que têm sido associadas a problemas de saúde.

A prova mais forte vem de um ensaio clínico randomizado mencionado no relatório. Nesse estudo, os participantes que consumiram uma dieta rica em ultraprocessados ganharam peso e ingeriram mais calorias do que aqueles em uma dieta não processada, mesmo quando as duas dietas eram perfeitamente equilibradas em termos de macronutrientes, açúcar, sal e fibras. Este resultado é a evidência mais forte de que os danos dos ultraprocessados não se devem apenas ao seu perfil nutricional. Ao igualar os nutrientes, o estudo isolou o impacto do próprio “ultraprocessamento” (como a ruptura da matriz alimentar e as alterações de textura) demonstrando que estes fatores, por si só, impulsionam o consumo excessivo de calorias e o ganho de peso.

Seu “Ambiente Alimentar” Dificulta a Escolha Saudável

O aumento do consumo de ultraprocessados não é apenas uma questão de falha na força de vontade individual. O parecer da AHA destaca que o “ambiente alimentar” desempenha um papel crucial.

O relatório descreve o conceito de “food swamps” (pântanos alimentares): comunidades saturadas de pequenas lojas de conveniência e redes de fast-food que vendem predominantemente ultraprocessados baratos e fortemente anunciados, enquanto o acesso a supermercados com opções saudáveis e acessíveis é limitado.

O documento aponta que essa realidade afeta desproporcionalmente comunidades de baixa renda, negras e hispânicas. Essa onipresença, combinada com marketing agressivo, efetivamente “expulsa” padrões alimentares tradicionais e mais saudáveis, substituindo-os por uma dieta dependente de conveniência e hiperpalatabilidade.

Um Olhar para o Futuro

A principal lição do novo parecer da American Heart Association não é apenas comer menos “junk food”, mas sim redefinir como identificamos os alimentos problemáticos. O foco muda dos nutrientes isolados (açúcar, gordura) para a presença de aditivos “cosméticos” e ingredientes industriais que alteram a própria natureza do que comemos.

Embora alguns ultraprocessados ricos em nutrientes possam se encaixar em uma dieta equilibrada, é o padrão geral da sua alimentação que realmente importa. O objetivo é reduzir drasticamente a ingestão dos ultraprocessados mais prejudiciais e substituí-los por opções mais saudáveis e minimamente processadas.

Agora que você sabe que a chave está nos aditivos “cosméticos”, como isso mudará a forma como você lê os rótulos dos alimentos no supermercado?

Fonte: Vadiveloo MK, Gardner CD, Bleich SN, Khandpur N, Lichtenstein AH, Otten JJ, Rebholz CM, Singleton CR, Vos MB, Wang S; American Heart Association Council on Lifestyle and Cardiometabolic Health; Council on Cardiovascular and Stroke Nursing; Council on Clinical Cardiology; Council on Genomic and Precision Medicine; and Stroke Council. Ultraprocessed Foods and Their Association With Cardiometabolic Health: Evidence, Gaps, and Opportunities: A Science Advisory From the American Heart Association. Circulation. 2025 Sep 23;152(12):e264. doi: 10.1161/CIR.0000000000001384. PMID: 40776885.

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